Eficiência energética e sustentabilidade corporativa

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Considere este diagrama, com as palavras “Arvores” e “Sementes” mutuamente conectadas, formando um ciclo (imagem).

Este simples desenho carrega conceitos importantes, inerentemente associados a sistemas complexos, sejam eles industriais, biológicos ou corporativos. Ali está representada a relação (positiva) existente entre duas variáveis, formando um ciclo de reforço positivo (reinforcing feedback loop) — algo como “quanto mais sementes plantadas, mais árvores crescerão” e, consequentemente, “quanto mais árvores maduras, mais sementes teremos”.

Mas o ciclo também pode ser observado no sentido oposto: “quanto mais árvores cortarmos, menos sementes teremos” e, logo, “quanto menos sementes plantarmos, menos árvores teremos”. Toda a complexidade de sistemas ecológicos, do seu ciclo de vida, sua estrutura e comportamento, de maneira simples, objetiva e, sobretudo, quantificável.

Na prática, sistemas industriais e corporativos são particularmente mais complexos do que o diagrama das árvores e sementes. As variáveis são em maior número, os fluxos de informações e recursos dependem de capacidades limitadas de processamento, e os efeitos das intervenções em determinadas partes do sistema podem não ser imediatos ou podem vir carregados de resultados indesejados, ou imprevistos.

A complexidade é algo concernente à nossa realidade. Sempre vale o esforço para tentar compreendê-la e reduzi-la a níveis tratáveis, mas fato é que a maioria dos projetos, processos e organizações carregam boas doses de complexidade tecnológica e organizacional.

Iniciativas de gestão de energia não são diferentes. De fato, esforços de transformação organizacional — voltados para qualidade, inovação, sustentabilidade, eficiência energética, dentre outros — exigem foco e persistência para analisar a situação corrente, estabelecer metas de evolução, criar planos de implementação, executá-los e avaliar seus resultados, realimentando o processo com o aprendizado obtido em cada iteração.

Historicamente, organizações que investem de maneira consistente nessas frentes alcançam níveis de desempenho significativamente superiores aos de seus concorrentes. Por outro lado, a habilidade das organizações em implementá-las adequadamente é o que as diferencia realmente. Compreender as estruturas que governam o comportamento de sistemas complexos, como as organizações industriais, é fundamental para o sucesso das iniciativas de transformação.

O ciclo de reforço positivo da eficiência energética

O objetivo de organizações industriais é a criação e a captura de valor para seus acionistas, colaboradores e para toda a comunidade em que está inserida, incluindo o meio ambiente. Esse é o argumento fundamental em favor do desenvolvimento sustentável, tendo a eficiência energética como variável de extrema relevância. Com o crescimento dos custos de energia e o aumento da pressão da sociedade e dos governos sobre a redução dos impactos ao meio ambiente causados pela atividade econômica, investir em iniciativas de eficiência energética tornou-se questão de primeira ordem.

Naturalmente, ganhos em eficiência energética tornam a organização mais competitiva; mais competitividade se reverte em melhores resultados financeiros; com mais caixa (quando bem administrado), mais investimentos podem ser destinados à expansão de capacidade, às tecnologias de produtividade, à eficiência operacional e à eficiência energética; esta maior eficiência garante menores níveis de emissões de gases de efeito estufa, reduzindo o impacto ambiental, além de melhorar a qualidade do trabalho, ambos impactando positivamente a comunidade. Investimentos bem realizados criam mais valor e mais oportunidades de investimento — o ciclo positivo vai ganhando força.

Como visto antes, o ciclo pode ser observado no sentido oposto. Menores níveis de investimento (ou investimentos mal realizados) destroem valor, aumentam o impacto negativo sobre o meio ambiente e a comunidade, comprometem a competitividade e, consequentemente, reforçam o efeito negativo daquele mesmo ciclo — menores níveis de eficiência energética aumentam custos, emitem mais gases de efeito estufa, e corroem a imagem institucional.

Nesse contexto, a sustentabilidade, mais do que a visão romantizada e de aparente difícil realização prática, deve ser vista como a exploração consistente, coerente e de longo prazo, dos ciclos de reforço positivo que conduzem as organizações na direção do crescimento continuado.

Sustentabilidade e eficiência energética

Iniciativas de transformação — a busca pela eficiência energética, em particular — demandam foco, persistência e boa gestão. Dados recentes da EUROSTAT mostram que, paradoxalmente, o investimento em eficiência energética na indústria é muito inferior ao seu potencial, mesmo trazendo retornos melhores que a média (algumas fontes sugerem custos em torno de 1 centavo de Euro para economizar 1 kWh, contra 12 centavos de Euro para consumir o mesmo 1 kWh). Essa estranha situação se deve a fatores como:

– Incerteza quanto aos retornos;

– Incerteza quanto aos níveis futuros de demanda e produção;

– Competição com investimentos “mais estratégicos” como capacidade produtiva, novos produtos ou expansão de mercados;

– Falta de instrumentos financeiros mais competitivos para apoiar os projetos.

O caminho para se alcançar a sustentabilidade de (ou através das) iniciativas de eficiência energética depende, assim, de três importantes frentes.

1. Sustentar a iniciativa

Os resultados dos investimentos em eficiência energética não são imediatos. Na verdade, como em vários outros esforços de transformação organizacional, as fases iniciais dos projetos podem evidenciar piora nos indicadores — uma consequência natural dos maiores níveis de atenção, medição e visualização que a iniciativa traz consigo, e que tornam mais evidentes os diversos problemas previamente existentes, porém até então represados. O eventual aumento de custos que acompanha, temporariamente, a transformação poderá sofrer pressões de curto prazo frente aos retornos esperados no médio e no longo prazo. Assim, é fundamental sustentar os esforços do projeto além de seus resultados iniciais, e em direção às maiores oportunidades de ganho.

2. Sustentar os resultados

Os ganhos em eficiência energética podem vir de intervenções em processos e equipamentos, mas também de melhores práticas de gerenciamento. Em ambos os casos, a sustentação dos resultados depende da institucionalização de procedimentos, ferramentas e novas tecnologias. Processos mais eficientes promovem a redução do consumo específico de energia, a redução das emissões equivalentes, além de maior previsibilidade da demanda e custos de insumos energéticos para atender diferentes níveis de produção. Ferramentas de gestão de energia e utilidades contribuem diretamente para a sustentação dos resultados no longo prazo, balanceando a degradação natural que equipamentos, processos e o próprio conhecimento podem apresentar ao longo do tempo.

3. Sustentar o aprendizado

Organizações, assim como pessoas e equipes, precisam aprender com a experiência, e sustentar o aprendizado por meio de processos e ferramentas. Talvez o maior impacto de iniciativas de eficiência energética, além das intervenções diretas sobre processos e equipamentos, seja a transformação sobre a forma de trabalhar, a cultura e o engajamento. Ações de gestão do conhecimento, de continuidade dos esforços e do enraizamento da cultura de eficiência são assim essenciais para sustentar o aprendizado organizacional.

Sustentabilidade e eficiência energética estão intimamente conectados, não somente pela oportunidade de criar impacto positivo sobre o meio ambiente, mas também pela contribuição que a eficiência energética (e operacional) tem sobre a sustentabilidade do negócio, em suas dimensões ambiental, social e econômica.